A importância de ouvir antes das decisões

Considerar os outros para resolver situações cotidianas é fundamental para a boa gestão escolar

Fiz parte da banca de uma tese de doutorado na qual o pesquisador realizou entrevistas com professores de escolas públicas que foram designados para o cargo de diretor escolar. Inquiridos sobre as razões que os levaram a abandonar a docência, alguns afirmaram que o fizeram para “se ver livre do trabalho pedagógico”. E, ao falar das características das funções no novo cargo, mencionaram que “o posto é mais valorizado que o de professor”, além de “não sofrerem com as dificuldades de sala de aula”, com problemas relacionados, principalmente, ao comportamento dos jovens. “Quero distância de alunos e pais”, afirmou um deles.

A pesquisa foi realizada em instituições da rede pública, mas situações e opiniões como as relatadas não são exclusivas dela. A discussão em torno do estudo nos fez refletir sobre o que está guardado no papel de gestor. Ou melhor, o que espera o educador – diretor, coordenador pedagógico ou orientador educacional – quando ele entra nesse espaço chamado de administração escolar.

É a lamentável a separação feita entre o administrativo e o pedagógico – a principal geradora de atitudes e posições como as que o pesquisador levantou. Torna-se necessário fazer, sim, a distinção entre um e outro, mas não se pode separá-los. Até porque a administração, na escola, só pode ser entendida como pedagógica.

Se buscarmos a etimologia da palavra administração, verificamos que ela nos remete a um trabalho que se realiza com alguém. Ad-ministrare, do latim, significou, em primeiro lugar, “ministrar junto”. Quem ocupa esse cargo aparece, originariamente, como o mestre cujo trabalho tem a mesma significação daquele feito pelos que o acompanham em suas tarefas. No campo da Educação e da escola, deveríamos manter esse sentido original. Ele guarda referência à alteridade e à consideração que se deve ter pelo outro como um elemento fundamental das relações que se dão na escola e no contexto social em que ela está inserida. A autoridade do gestor, portanto, só ganha sentido na perspectiva da alteridade e da igualdade nela implicadas. A ética nos faz ver que o outro é diferente, mas igual em direitos e em sua humanidade. Na escola, desempenham-se funções diversas e, na riqueza desse convívio, se cria a possibilidade de um trabalho realmente coletivo. A boa atuação do gestor, portanto, não se faz a distância das salas de aula, das reuniões pedagógicas e da comunidade. A melhor sala de direção é aquela em que estão presentes os outros ambientes da escola e todos aqueles que convivem nela. Ninguém, ali, “se livra” do trabalho pedagógico.

Publicado no site Nova Escola Gestão em 01 de Agosto de 2009.